É com muita alegria que divulgamos o talento do nosso Associado Rogério Ribeiro Leite!
Ele compartilha seu talento e inspiração por meio da poesia.
Confira abaixo algumas de suas poesias.
A CASA AO LONGE
A IMPERFEIÇÃO DO SER…
A LUZ DOS TEUS OLHOS
A NATUREZA DO HOMEM
ABRAÇO A DOIS
ABREVIATURA
ACALENTO
ÁGUA
A CAIXA DE PANDORA
Quando abriu
O Homem a Caixa de Pandora,
Os fantasmas libertaram-se, desnaturando os planos do construtor.
Nas planícies irrigadas do Eufrates,
Aravam os cultivadores,
Degustando o solo – margem a margem –,
Colhendo, entre os pastores de ovelhas e cabras, os frutos
Que a natureza provia, enquanto os artesãos afiavam as ferramentas
Do progresso e os escribas compilavam para a linguagem escrita
O que até então era fruto da oralidade, quando das montanhas desceram
[os salteadores,
E com suas pragas secaram o solo,
Macularam o templo, profanaram os deuses
E brandiram os khopeshes contra a crueza dos corpos,
Encharcando de sangue mil almas…
O tempo viajou,
A paz criou os feudos,
Os feudos as cidades-estados;
As mãos entrelaçaram-se e os antebraços deram-se
Na dança dos salões, quando chegou a cobiça,
Avançando sobre os iguais…
(A fé queimada nas fogueiras da inquisição)…
De novo viajou o tempo,
O moderno abraçou o Homem,
E o Homem abraçou o moderno
Sem, contudo, livrar-se dos salteadores…
Os inquisidores mantêm-se,
Mantendo acesas as tochas que acenderão
A lenha, enquanto busca o Homem o portador da chave capaz de fechar
[a Caixa de Pandora,
Resgatando os fantasmas que os planos do construtor desnaturaram…
A CASA AO LONGE
Na colina ao alto,
Uma Casa ao longe,
Sozinha, no arrebol,
Entre arvoredos, imponente,
A impor questionamentos:
Quem será que mora lá?
Duendes, fadas, ou quem sabe
Uma bruxa, de nariz grande e pontudo…
Talvez lá não more ninguém,
Talvez ela viva sozinha,
Porque não goste de companhia
Ou, quem sabe, expulsou o último morador…
Uma Casa ao longe,
Sem vizinhos, solitária,
Como querendo que eu vá lá
Estar com ela, conhecê-la.
Mas se lá ninguém mora
Ou se ela expulsou o último morador,
Seria eu capaz de curar sua solidão,
Se solitário também sou?
Vou caminhar, romper os arvoredos,
Aproximar-me devagar e, quem sabe (?),
Desvendar o enigma que guarda a Casa ao longe…
A IMPERFEIÇÃO DO SER…
Contam que a alma nos comanda
E está conosco desde sempre e para sempre. Mas, se ela nos comanda e dirige [nosso corpo,
Por que sentimos o corpo, permanecendo a alma no anonimato, se a não
Sentimos, como sentimos o corpo?…
E se gozar os sentidos do corpo,
Que nos permite fazer ou deixar de fazer algo,
É denegar a alma, apesar de sabermos ser nada o corpo sem a alma,
Por que não a sentimos?…
Imagine o que seria o corpo,
Se seguisse por aí, sem alma,
Como fruto sem semente, como oração sem fé,
Vazio de si, na imperfeição de ser, sem ser…
Afinal, se a alma é imanente ao corpo, imanente à alma é Deus, e, se podemos
[senti-Lo com o corpo,
Mais podemos senti-Lo com a alma, esta, efetivamente, imanente a Deus…
A LUZ DOS TEUS OLHOS
Procuro no olhar da águia
O brilho que entorpece,
E o encontro nos olhos da presa,
Que imóvel se entrega.
Procuro no diamante
O brilho que ofusca todos os brilhos,
E o encontro na gota d’água
Que cai lépida
Na cachoeira do além sol.
Procuro no sol
O brilho da chama que queima,
E o encontro
No coração dos apaixonados.
Procuro nas estrelas
O brilho que inspira,
E o encontro na chama da vela,
Que no corpo se deixa consumir,
No romper da escuridão.
Procuro na lua
O brilho da paixão,
E o encontro no olhar do colibri
Que sorve, em suave voo,
O néctar da vida.
Procuro o brilho
Que resume todos os brilhos
E o encontro em teu corpo,
Em teu pulcro olhar,
Cuja chama ainda
Arde em meu peito,
Na esperança de realizar em ti
O mais desejado dos sonhos…
A NATUREZA DO HOMEM
Depois que os oceanos aquietaram-se,
No mistério que envolve a complexidade do universo,
Segue em dúvida o Homem quanto ao curso a seguir…
Seguirá o Homem o curso da natureza,
Ou seguirá a natureza o curso do Homem?
Ah natureza!
Por que segues,
De quando em vez,
A natureza do Homem que, instável, não sabe que curso seguir, o dele próprio
[ou o teu?…
Acaso achas que pode o Homem, com sua astúcia, prover-te dos elementos
Que faltam neste universo que tende ora a ser mais ora a ser menos,
Quando carece de equilíbrio?
Oxalá pudesse o Homem teu curso seguir…
Seria como o riacho que corre sobre as planícies
Para as margens florescer…
Saibas pois que,
Se o universo ora é menos
Ora é mais, o é por culpa do Homem
Que, apesar de astuto, não tem a tua sabedoria.
Porque tu
(Que existe antes do Homem!)
Te fizeste assim, sábia,
Desenrolando teu novelo, fio a fio,
No desenrolar do tempo que se desfia no desnovelar das horas
Que pacientemente caminham, alternando-se entre os ponteiros, enquanto
[definha o Homem nos
Minutos e segundos que a natureza conduz, até que à porta bata a morte…
ABRAÇO A DOIS
Ah! O abraço…
Quem será que o inventou?
Um desatador de nós, certamente.
Um doador…
Alguém capaz de dar de si
E de extrair do outro o melhor.
Como a samaritana no poço, aguardando a água viva.
O inventor do abraço pôs nele o pó da vida,
Tornando-o capaz de desfazer a morte,
Como Lázaro nos braços de Jesus.
O sopro de Deus em Adão foi um abraço.
O abraço é doce, mel, garapa, tem gosto de rapadura.
É quente, mas, por vezes, congela.
Faz efeito,
Mesmo lépido.
Longo, abrasa, refaz, adormece, deixa ficar.
O abraço nos faz pai, mãe, filho, irmão, amigo, amante.
(É prefácio e epílogo do sexo).
Ah! E o teu abraço?
Aquece, congela, entorpece, estarrece.
Extrai de mim o que está fundo, Incógnito, silente;
O que nem eu conhecia e que minha sede sacia.
Desatando este nó que asfixia,
Suscitas, ressuscitas o que há de bom em mim,
E que tornas à margem, trazes à tona.
Sem teu abraço,
Sou samaritano sem poço,
Lázaro sem Jesus,
Adão sem Deus,
Nó atado…
ABREVIATURA
Abreviar,
Reduzir.
Fazer caber em espaço
Menor
O que caberia em outro espaço,
Maior.
E dividimos,
Cortamos,
Podamos.
O que era mais
Vira menos,
O que era além,
Aquém.
E abreviamos:
O abraço,
O beijo,
O sexo,
O desejo.
O gozo.
Alguns abreviam
A vida
Para abreviar
A morte,
Esta, a derradeira
Abreviatura.
ACALENTO
Quero bastar-me
A mim,
Como o universo
Basta-se a si.
Retroalimentar-me
Como o sol
Que está no seu lugar,
Mesmo quando a chuva cai
Sobre nossos corpos.
Iluminar-me
Como miríades de estrelas;
Lavar-me como rochas
Que sustentam cascatas.
Esgotar-me
Como semente que fenece
Para germinar
O broto que floresce;
Voar além dos limites,
E renascer
De minhas impossibilidades,
Como águia
Em fenda de montanha.
Exaurir-me,
E saber que em último
E profundo hausto serei,
Mesmo depois de deixar de ter sido.
ÁGUA
Varre, no leito,
O córrego,
Lamacenta água,
Que leva alvacentos sonhos,
Apagados como luz de vela
Cuja parafina se hauriu.
Procura teu reflexo meu olhar,
Que não encontro,
Porquanto se encontra
No anil do céu
Ou nas riquezas de Ophir.
Minha alma da lama
Desejo lavar
Em tua alma casta,
Água cristalina
No riacho a correr.
Por que te distas
De meu corpo,
Que ao teu implora
Que se dispa,
Se quero tanto lavar-me
Na mesma água
Em que te lavas?…
